sexta-feira, 25 de maio de 2012

Intertextualidade, interdiscursividade e paródia


intertextualidade

Textos "conversam" entre si


Para entender o que é o conceito de "intertextualidade", um exemplo divertido. O jogo do "não confunda":
  • Não confunda "bife à milanesa" com "bife ali na mesa",
  • Não confunda "conhaque de alcatrão" com "catraca de canhão",
  • Não confunda "força da opinião pública" com "opinião da força pública".
    Como se vê, é possível elaborar um texto novo a partir de um texto já existente. É assim que os textos "conversam" entre si. É comum encontrar ecos ou referências de um texto em outro. A essa relação se dá o nome deintertextualidade.
    Para entender melhor a palavra, pense em sua estrutura. O prefixo inter, de origem latina, se refere à noção de relação (entre). Logo, intertextualidade é a propriedade de textos se relacionarem.

    Intertexualidade na poesia

    Veja como Chico Buarque de Holanda, um dos mais importantes compositores brasileiros, utiliza a intertextualidade em uma canção sua. Em "Bom Conselho", ele faz referências a provérbios populares.

    Provérbios populares

    Canção de Chico Buarque

    “Uma boa noite de sono combate os males”

    “Quem espera sempre alcança”
    “Faça o que eu digo, não faça o que eu faço"
    “Pense, antes de agir”
    “Devagar se vai longe”
    “Quem semeia vento, colhe tempestade”
    Bom Conselho
    Ouça um bom conselho
    Que eu lhe dou de graça
    Inútil dormir que a dor não passa
    Espere sentado
    Ou você se cansa
    Está provado, quem espera nunca alcança
    Venha, meu amigo
    Deixe esse regaço
    Brinque com meu fogo
    Venha se queimar
    Faça como eu digo
    Faça como eu faço
    Aja duas vezes antes de pensar
    Corro atrás do tempo
    Vim de não sei onde
    Devagar é que não se vai longe
    Eu semeio vento na minha cidade
    Vou pra rua e bebo a tempestade
    (Chico Buarque, 1972)

    Chico Buarque inverte os provérbios, questionando-os e olhando-os sob outro ângulo, atribuindo-lhes novos sentidos.
    Há vários exemplos de intertextualidade na literatura. Veja, a seguir, como Ricardo Azevedo brinca com o famoso poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade.

    QuadrilhaQuadrilha da sujeira
    João amava Teresa que amava Raimundo
    que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
    João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.
    (Carlos Drummond de Andrade)
    João joga um palitinho de sorvete na
    rua de Teresa que joga uma latinha de
    refrigerante na rua de Raimundo que
    joga um saquinho plástico na rua de
    Joaquim que joga uma garrafinha
    velha na rua de Lili.
    Lili joga um pedacinho de isopor na
    rua de João que joga uma embalagenzinha
    de não sei o quê na rua de Teresa que
    joga um lencinho de papel na rua de
    Raimundo que joga uma tampinha de
    refrigerante na rua de Joaquim que joga
    um papelzinho de bala na rua de J.Pinto
    Fernandes que ainda nem tinha
    entrado na história.
    Ricardo Azevedo (”Você Diz Que Sabe Muito, Borboleta Sabe Mais”, Fundação Cargill)

    Enquanto um texto trata do amor não correspondido, por meio da comparação com uma dança (quadrilha), o outro critica o mau hábito de jogar lixo na rua - e mostra como as pessoas prejudicam as outras.

    A intertexualidade também é um recurso comumente utilizado pelas crônicasde jornal. Abaixo, veja como José Roberto Torero utiliza uma frase famosa dita por um personagem de Shakespeare. A frase quer dizer, em poucas palavras, que há muita coisa na vida que não compreendemos.

     PARÓDIA é um tipo de intertextualidade.

A paródia representa uma intertextualidade

A paródia é a criação de um texto a partir de um bastante conhecido, ou seja, com base em um texto consagrado alguém utiliza sua forma e rima para criar um novo texto cômico, irônico, humorístico, zombeteiro ou contestador, dando um novo sentido ao texto. Parte da intertextualidade, a paródia é um intertexto, ou seja, é um texto resultante de um texto origem que pode ser escrito ou oral. Essa intertextualidade também pode ocorrer em pinturas, no jornalismo e nas publicidades.

A intertextualidade está presente também em outras áreas, como na pintura, veja as várias versões da famosa pintura de Leonardo da Vinci, Mona Lisa:


Mona Lisa, Leonardo da Vinci. Óleo sobre tela, 1503.

Mona Lisa, de Marcel Duchamp, 1919.

Mona Lisa, Fernando Botero, 1978.

Mona Lisa, propaganda publicitária.

Bom, é óbvio que a intertextualidade está ligado ao "conhecimento do mundo", que deve ser compartilhado, entre os envolvidos para fazer sentido,  ou seja, comum ao produtor e ao receptor de textos. O diálogo entre textos pode ocorrer em diversas áreas do conhecimento, não se restringindo única e exclusivamente a textos literários.

Na literatura relativa à Lingüística Textual, é freqüente apontar-se como um dos fatores de textualidade a referência - explícita ou implícita - a outros textos, tomados estes num sentido bem amplo (orais, escritos, visuais - artes plásticas, cinema - , música, propaganda etc.) A esse “diálogo”entre textos dá-se o nome de intertextualidade.

A intertextualidade pressupõe um universo cultural muito amplo e complexo, pois implica a identificação / o reconhecimento de remissões a obras ou a textos / trechos mais, ou menos conhecidos, além de exigir do interlocutor a capacidade de interpretar a função daquela citação ou alusão em questão.

Já a interdiscursividade é o conversar entre discursos. Onde um age como resposta, ou se refere a outro. Enquanto a intertextualidade é o texto produzido com base em outro(s) texto(s).

Aliás, a intertextualidade não é paródia, paródia é um tipo de intertextualidade.

Mas voltando a interdiscursividade, este é um conceito proposto por Mikhael Bakhtin sobre a relação que um texto (discurso) tem com outros textos (outros discursos). A interdiscursividade é o caráter principal do texto, já que para Bakhtin todo texto é atravessado por um outro, ou outros anteriores. Isto é, o texto sempre "fala" o que já foi falado (escrito, expresso). Para o linguista russo, portanto, nenhum discurso tem total originalidade.

A análise do discurso, antes disso, vai trabalhar a ideologia, as idéias (a visão de mundo) que o homem assimila em sua formação. Essas idéias que formam uma visão de mundo também não serão independentes. No plano da ideologia, as idéias também sofrerarão um processo parecido com a interdiscursividade, só que no pensamento. Ao expressar tais pensamentos (de forma escrita ou falada), o homem não poderá fugir de uma interdiscursividade na produção de seu discurso.

Interessante, não?

E a paródia?
Bom... paródia é uma imitação, na maioria das vezes cômica, de uma composição literária, (também existem paródias de filmes e músicas), sendo portanto, uma imitação que geralmente possui efeito cômico, utilizando a ironia e o deboche. Ela geralmente é parecida com a obra de origem, e quase sempre tem sentidos diferentes. Na literatura a paródia é um processo de intertextualização, com a finalidade de desconstruir ou reconstruir um texto.

A paródia surge a partir de uma nova interpretação, da recriação de uma obra já existente e, em geral, consagrada. Seu objetivo é adaptar a obra original a um novo contexto, passando diferentes versões para um lado mais despojado, e aproveitando o sucesso da obra original para passar um pouco de alegria.


E o que é Dialogismo?

Dialogismo é o que Mikhail Bakhtin (dá para reparar que eu gosto desse linguista?) define como o processo de interação entre textos que ocorre na polifonia; tanto na escrita como na leitura, o texto não é visto isoladamente, mas sim correlacionado com outros discursos similares e/ou próximos. Em retórica, por exemplo, é mister incluir no discurso argumentos antagônicos para poder refutá-los.

Dialogismo se da à partir da noção de recepção/compreensão de uma enunciação o qual constitui um território comum entre o locutor e o locutário. Pode se dizer que os interlocutores ao colocarem a linguagem em relação frente um a outro produzem um movimento dialógico.

Segundo Bakhtin, o diálogo pode ser definido como "toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja". A palavra chave da linguística bakhtiniana é diálogo.

Monte Castelo - Renato Russo - Aula sobre Intertextualidade e interdiscursividade 

O sonêto 11 de Luiz Vaz de Camões, foi adaptado musicalmente pelo grupo "Legião Urbana". Sua forma original é tirada do texto bíblico 1 Coríntios 13




Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?


II Carta de São Paulo aos Corínthios, cap. 13
"Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine.


Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de remover montanhas, mas não tivesse amor, nada seria.


Se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres e até me fizesse escravo, para me gloriar, mas não tivesse amor, de nada me aproveitaria.


O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza, não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade. Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo.


O amor jamais acabará. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá.


Com efeito, o nosso conhecimento é limitado, como também é limitado nosso profetizar. Mas quando vier o que é perfeito, desaparecerá o que é imperfeito.


Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei adulto, rejeitei o que era próprio de criança. Agora nós vemos num espelho, confusamente, mas, então veremos face a face. Agora, conheço apenas em parte, mas, então, conhecerei completamente, como sou conhecido.


Atualmente permanecem estas três: a fé, a esperança, o amor. Mas a maior delas é o amor."




Monte Castelo
(Renato Russo)
Composição: Renato Russo
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem.
Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.


A Música de Renato Russo há uma relação intertextual por que há citação de trechos da Bíblia e estabelece uma relação de interdiscursividade por que  Rena to russo se apropria dos discursos camoniano e bíblico.


Arte para produzir "arte" !!

Os desenhos animados também são direcionados, e em alguns casos, principalmente, aos adultos. Prova disto está na utilização de obras da arte (clássica, surrealista, etc.) como elementos que compõem seus argumentos. A maioria das crianças não faz idéia da existência da "Capela Cistina"(É bem verdade que muitos adultos também estão na mesma situação!). Mas tudo isso para dizer que a intertextualidade só faz sentido e, só é percebida, quando o público e/ou audiência a que destinam-se, tem um conhecimento prévio acerca do assunto.



4 comentários:

  1. Gostei muito do que vi hoje sobre intertextualidade e interdiscursividade. Ficou claro que você gosta desse linguísta russo.Quando se gosta do que faz,a teoria e a prática se completam.
    Sou professora do Estado,em SBC e,leciono para 7a e 8a séries e queria me apropriar destes conceitos.Obrigada.Deus abençoe aqueles que partilham conhecimentos.

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  2. Excelente explicação! Clara e de fácil entendimento! Obrigado!

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  3. Adorei mesmo, faço p´[os em literatura infantil e juvenil, e com essa leitura sobre o tema referido, ficou muito bem esclarecido o assunto. Valeu

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